Aviação portuguesa procura transformar inovação em escala industrial

Da manutenção aeronáutica aos drones e à mobilidade aérea avançada, a indústria portuguesa enfrenta o desafio de transformar conhecimento e inovação em operações comerciais sustentáveis. No World Aviation Festival 2026, em Lisboa, representantes do sector destacaram a cooperação empresarial, o financiamento, a integração tecnológica e a qualificação de profissionais como fatores determinantes para o crescimento.

Portugal dispõe de competências tecnológicas e industriais para participar na transformação da aviação, mas precisa de acelerar a passagem da investigação e dos projetos-piloto para operações comerciais com escala. Esta foi uma das principais mensagens do debate Portugal in the Future Aviation Ecosystem: Clean Aviation, AAM & MR, realizado no World Aviation Festival 2026, na FIL, em Lisboa.

O painel reuniu Veruska Dias, Chief Product and Strategy Officer da Speedbird Aero, Margarida Pinto, Advisor to the Board do ISQ, David Cruz, CEO da MESA, Nelson Vaz, Director of Business Development da TAP Air Portugal e Pedro Mendes, COO da Beyond Vision, com moderação de José Neves, presidente da AED Cluster Portugal.

A discussão abordou os desafios da manutenção, reparação e revisão aeronáutica (MRO), dos drones, da sustentabilidade e da mobilidade aérea avançada, tendo como denominador comum a necessidade de integrar tecnologias e competências para criar valor económico.

 

Da prova de conceito à operação comercial

Para Veruska Dias, um dos principais desafios europeus não está na falta de conhecimento, mas na dificuldade em transformar os resultados da investigação e desenvolvimento em operações comerciais regulares.

A responsável da Speedbird Aero destacou a qualidade das universidades, centros de investigação e empresas europeias, considerando, porém, que o sector permanece demasiado concentrado em provas de conceito. «Precisamos de avançar para a etapa seguinte e colocar esta tecnologia e este conhecimento no quotidiano das pessoas. A questão é como conseguir escalar», afirmou.

Especializada em soluções de logística com drones para aplicações civis, a Speedbird Aero está em Portugal desde 2024. Segundo Veruska Dias, a operação nacional tem crescido em instalações e recursos humanos, procurando desenvolver um ecossistema que articula aeronaves, infraestruturas, sistemas digitais, segurança e gestão operacional.

A viabilidade económica constitui, contudo, uma condição essencial. Não basta demonstrar que um drone consegue executar determinada missão: é necessário garantir que os custos de certificação, infraestrutura e operação permitem oferecer serviços competitivos.

Dias considera que a Europa dispõe de bases sólidas em regulamentação, tecnologia, sustentabilidade e aceitação pública, mas continua a revelar dificuldades em integrar essas competências num sistema operacional capaz de ganhar escala.

 

Cooperação para transformar investigação em produto

A necessidade de converter inovação em valor económico foi igualmente destacada por Margarida Pinto, que identificou a industrialização e comercialização dos resultados de investigação como desafios relevantes para a cadeia de abastecimento aeronáutica.

«Temos produtos e propriedade intelectual, mas depois encontramos dificuldades em transformar esses resultados em produtos reais e integrá-los no mercado», afirmou.

A responsável do ISQ recordou que os longos ciclos de desenvolvimento da aviação exigem investimentos elevados, com retornos frequentemente demorados, defendendo uma maior colaboração entre empresas e entidades tecnológicas.

«As empresas e as entidades devem ganhar escala, partilhar o risco e criar consórcios. Isso continua a ser difícil em Portugal», considerou.

Como exemplo, referiu um projeto que reuniu 13 empresas, 12 portuguesas e uma espanhola, durante quase sete anos. Apesar dos resultados alcançados, a continuidade da cooperação e a sua transformação em novos produtos revelaram-se difíceis.

O acesso ao financiamento foi também abordado, tendo sido apontada a reduzida apetência do capital de risco português para apoiar projetos de maior incerteza tecnológica.

 

MRO aposta na sustentabilidade e prepara expansão

Na manutenção aeronáutica, David Cruz apresentou as iniciativas da MESA para reduzir a pegada ambiental das operações em Beja, destacando a importância da eficiência energética das infraestruturas e dos equipamentos de apoio em terra.

A empresa está a construir dois novos hangares, onde prevê instalar painéis solares para autoconsumo e disponibilização de excedentes à comunidade energética do aeroporto.

«Se conseguirmos disponibilizar conversores elétricos nas posições de estacionamento e conjugá-los com a produção solar, poderemos reduzir significativamente a pegada de carbono», explicou.

A localização em Beja oferece ainda disponibilidade de espaço para expansão e proximidade à Base Aérea, abrindo oportunidades de colaboração com a Força Aérea Portuguesa.

Relativamente à manutenção de drones, David Cruz reconheceu o potencial do mercado, mas considerou que operadores com infraestruturas mais pequenas poderão responder de forma mais competitiva às suas necessidades específicas.

Também Nelson Vaz antecipou um crescimento significativo do MRO português na próxima década, com operações mais integradas e maior cooperação entre empresas e parceiros industriais.

O responsável da TAP Air Portugal destacou os planos de expansão já em execução e as oportunidades que poderão gerar para a cadeia de valor aeronáutica.

A escassez de profissionais foi, contudo, identificada durante o debate como um dos principais obstáculos ao crescimento. Embora a digitalização e a automação possam melhorar a eficiência dos processos, a manutenção continuará a depender de competências técnicas especializadas.

 

Mobilidade aérea avançada exige integração tecnológica

Na área dos drones, Pedro Mendes defendeu que a participação portuguesa no mercado da mobilidade aérea avançada não exige necessariamente o desenvolvimento de aeronaves completas.

«Não precisamos de construir toda a aeronave para fazer parte da mobilidade aérea avançada. Podemos contribuir com as nossas tecnologias e integrá-las num consórcio», afirmou.

O COO da Beyond Vision destacou a plataforma digital da empresa, que permite ligar drones de diferentes fabricantes e operar autonomamente múltiplos equipamentos a partir de um único ponto de controlo remoto.

A gestão de um espaço aéreo partilhado foi identificada como um dos desafios mais complexos para o desenvolvimento destas soluções.

Veruska Dias reforçou a necessidade de uma abordagem integrada, considerando que a mobilidade aérea avançada deve articular aeronaves, inteligência artificial, infraestruturas, operações digitais e diferentes modos de transporte.

«Não se trata apenas da propulsão. Se otimizarmos rotas, criarmos corredores digitais e utilizarmos novos materiais para prolongar os ciclos de vida, estamos também a contribuir para uma aviação verdadeiramente sustentável», afirmou.

Na sua perspetiva, os drones não irão substituir os meios de transporte existentes, mas complementá-los em aplicações específicas, integrando um ecossistema de mobilidade cada vez mais conectado.

 

Integrar competências para ganhar escala

O debate evidenciou um sector com potencial de crescimento, mas também com desafios estruturais que atravessam a investigação, a indústria e as operações aeronáuticas.

Da expansão do MRO à mobilidade aérea avançada, a competitividade portuguesa dependerá da capacidade de criar parcerias, mobilizar investimento, qualificar profissionais e transformar soluções tecnológicas em produtos e serviços comercialmente viáveis.

Para a cadeia de abastecimento aeronáutica, esta evolução abre oportunidades em áreas como engenharia, manutenção, energia, software, automação, infraestruturas e logística.

A principal mensagem do painel foi clara: mais do que desenvolver inovação, Portugal precisa de criar condições para a integrar, industrializar e transformar em operações sustentáveis, capazes de competir nos mercados internacionais.

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