Boom da IA e restrições energéticas na Europa tornam Portugal um mercado competitivo para data centers

A JLL divulgou esta semana o relatório “Data Centers em Portugal 2026”, que traça o retrato de um mercado com “forte potencial” de crescimento e analisa o seu posicionamento no contexto da profunda transformação que atravessa o setor europeu dos data centers. O estudo, que conta com um prefácio da Portugal DC – Associação Portuguesa de Data Centers, conclui que o país se encontra “bem posicionado” para beneficiar da nova vaga de investimento impulsionada pela inteligência artificial (IA).

“O rápido crescimento do investimento em infraestruturas de IA está a colidir com restrições cada vez mais severas relacionadas com a disponibilidade de energia, capacidade da rede elétrica e oferta de terrenos nos mercados europeus mais maduros, como Paris, Londres, Frankfurt, Amesterdão e Dublin. Como consequência, promotores e fornecedores de serviços cloud estão a expandir o seu olhar para além destes hubs tradicionais”, segundo comunicado.

Segundo a JLL, a IA deverá representar cerca de metade de toda a capacidade global dos data centers até 2030, uma escala de procura que está a obrigar o setor a repensar onde e como construir. O estudo mostra que esta mudança já é visível na Europa: os novos campus hyperscale previstos para entrar em operação entre 2026 e 2028 localizam-se, em média, a 175 km dos principais hubs europeus, enquanto os projetos concluídos entre 2022 e 2025 se encontravam, em média, a apenas 46 km desses centros.

Neste contexto, Portugal destaca-se como um dos exemplos mais claros de como um mercado secundário pode transformar vantagens estruturais – como energia, localização geográfica e políticas públicas – numa proposta de valor altamente competitiva para captar investimento em infraestrutura digital.

“À medida que as restrições da rede persistirem nos hubs tradicionais europeus, o acesso à energia deverá tornar-se o principal fator competitivo para atrair investimento em infraestrutura de IA. Mercados capazes de garantir ligações à rede em grande escala, previsibilidade regulatória e terrenos adequados, como é hoje o caso de Portugal, deverão captar uma fatia crescente do investimento futuro no setor”, explica Maria Cunha Menezes, Head of Project and Development Services da JLL Portugal.

A responsável acrescenta: “Estamos a assistir a uma mudança estrutural na forma como se planeia a infraestrutura de data centers, tanto na Europa como à escala global. Historicamente, os operadores procuravam instalar-se o mais próximo possível dos grandes centros populacionais. Hoje, a nova geração de infraestruturas dedicadas ao treino de modelos de IA segue uma lógica diferente: o fator determinante é cada vez mais a disponibilidade de energia suficiente, e não apenas a proximidade da procura.”

É precisamente nesta dimensão que Portugal se destaca. O relatório sublinha que mais de 80% da eletricidade produzida no país já tem origem em fontes renováveis. Os dados mais recentes da REN indicam que as renováveis asseguraram 68% do consumo nacional de eletricidade em 2025, distribuídos entre hídrica (27%), eólica (25%), solar fotovoltaica (11%, um valor recorde) e biomassa (5%).

Portugal é ainda exportador líquido de energia desde 2016, um fator pouco comum entre os principais mercados europeus de data centers e particularmente relevante num contexto em que o acesso à energia se tornou, segundo a JLL, a principal vantagem competitiva para atrair investimento em infraestruturas de IA.

A posição geográfica de Portugal reforça esta vantagem. O país funciona como ponto de aterragem e passagem de vários cabos submarinos intercontinentais, incluindo o 2Africa, o maior sistema de cabos submarinos do mundo, com 45.000 km de extensão e ligação a 33 países, que chegou a Carcavelos no primeiro trimestre de 2024. Destaca-se também o cabo Nuvem, da Google, que deverá ligar Portugal aos Estados Unidos a partir de 2027.

Estas infraestruturas, complementadas por uma rede terrestre de fibra ótica extensa e madura, criam ligações digitais de baixa latência entre a Península Ibérica e mercados estratégicos na América do Norte, África e Ásia.

Não por acaso, alguns dos maiores projetos atualmente em desenvolvimento no país localizam-se junto destes pontos de aterragem. É o caso do Start Campus, em Sines, atualmente o maior projeto hyperscale em desenvolvimento em Portugal, com um objetivo final de 1.200 MW de capacidade alimentada a 100% por energia renovável. A primeira unidade, o SIN01, já opera com 37,5 MW de carga de TI.

O relatório destaca também uma transformação relevante na forma como Portugal gere o acesso à rede elétrica, atualmente um recurso tão crítico para os data centers como o terreno ou a conectividade. O país está a abandonar o modelo de “primeiro a chegar, primeiro a ser servido” em favor de uma abordagem mais seletiva, baseada na exigência de garantias financeiras, na priorização de projetos considerados estratégicos para a economia nacional e na atribuição gradual de capacidade à medida que os projetos avançam para execução. O objetivo passa por reduzir a especulação e assegurar uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis.

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