(Des)globalização ou maior globalização: o papel da logística

A geopolítica atual tem conhecido amplo debate sobre a regionalização das cadeias de valor, face a um anterior contexto da sua globalização. Uma análise em maior detalhe, identifica comportamentos distintos. No contexto COVID-19 e da consequente necessidade de minimização do risco de disrupção das cadeias de abastecimento, identificaram-se cenários de reindustrialização da Europa e Estados Unidos da América (EUA), através, por exemplo, de estratégias nearshoring (conceito geográfico) ou friendshoring (conceito político). Os mais recentes contextos de conflitos armados, evidenciam as lacunas de industrialização da Europa, desta vez na produção de armamento.

As estatísticas que inferem a reindustrialização da Europa revelam um comportamento distinto, com a manutenção do nível de industrialização do período pré-COVID-19. Ao invés de estratégias de nearshoring, as empresas parecem preferir alternativas como a do  aumento dos seus inventários, com a volatilidade indexada aos períodos em que decisores antecipam novas subidas de preços. Descontando o risco de inflação, as estratégias logísticas de diversificação das origens de abastecimento, como a dual-and-multisourcing, contribuem para uma resposta ágil às disrupções da cadeia, com a necessária adaptação dos contratos de fornecimento para permitirem variação de volumes entre diferentes origens.

As novas barreiras à entrada em países, como é o caso das tarifas alfandegárias nos EUA, também relevam risco de disrupção dos fluxos de bens para esse país, mas constituem autênticas oportunidades para uma logística moderna. Se a infraestrutura sempre foi crítica – veja-se o exemplo de um Porto de Sines e do acesso a novos mercados pelas rotas que zarpam deste porto – a infoestrutura ganha outro relevo. Uma infoestrutura da informação transparente e partilhada rapidamente entre atores da cadeia de abastecimento, mas também uma infoestrutura alavancada pelo novo paradigma da inteligência artificial. Seja pela maior velocidade de coordenação entre os atores – com respostas logísticas mais ágeis – seja pela resposta a alteração de hábitos de consumo.

A gestão de inventários, o dual-and-multisourcing ou a melhoria na gestão da informação, são exemplos de estratégias que parecem contrariar a esperada reindustrialização. Numa recente entrevista para produção de tese académica, um executivo de multinacional com base em Portugal, argumentava que episódios como a COVID-19 e as disrupções logísticas internacionais “testaram a capacidade de adaptação da empresa e contribuíram para reforçar uma cultura organizacional orientada para cenários, planeamento e resposta rápida”. Combinando as soluções logísticas com a agilidade organizacional, o paradigma da globalização não diminuí de intensidade face a uma substituição por uma reindustrialização de proximidade.

 

Luís Marques, Diretor do MBA Executivo na Católica Porto Business School e Administrador na Rangel Logistic Solutions

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