A entrada da Lufthansa no capital da TAP poderá aumentar a capacidade disponível, reforçar as ligações internacionais e criar novas oportunidades para o e-commerce e as exportações portuguesas. António Nabo Martins, diretor-geral da APAT (Associação dos Transitários de Portugal), defende que esta operação deve traduzir-se em melhores condições comerciais para os transitários, maior eficiência logística e valorização dos aeroportos nacionais como plataformas de carga aérea.
Logística Moderna – Que impacto poderá ter a entrada da Lufthansa no capital da TAP no mercado português de carga aérea, nomeadamente ao nível da capacidade disponível, das rotas internacionais, dos custos de transporte e da competitividade dos transitários nacionais?
António Nabo Martins – A entrada da Lufthansa poderá representar uma oportunidade importante para reforçar a posição de Portugal nos fluxos internacionais de carga aérea. Falamos de um posicionamento num Hub extremamente importante para Portugal, nomeadamente América do Sul e África e estamos a falar de um grupo com escala global, com experiência na gestão de redes globais de transporte e uma operação especializada de carga, pelo que é expectável que olhem para a carga aérea como ela “merece” e não como tem sido olhada, por todos os players (em Portugal), até hoje. Focando-nos apenas na questão da carga aérea onde podemos identificar potencial impacto, na capacidade disponível que aumenta consideravelmente, nas rotas internacionais que vão permitir uma integração entre companhias, nomeadamente na conectividade com a Europa Central e nos mercados intercontinentais, complementando África e América e nos custos e competitividade de uma rede mais integrada, que, vai, supostamente melhorar a eficiência, reduzir custos e ser mais eficiente em transferências de carga e encaminhamentos da mesma. Em síntese, para os transitários nacionais, o essencial é que estas sinergias se traduzam em melhores condições de compra, maior previsibilidade, fiabilidade e flexibilidade na gestão dos envios dos seus clientes e a ser verdade que a proposta contempla o reforço do hub de Lisboa, o crescimento da operação no Porto e a expansão da frota, para além de outros investimentos, só podemos estar satisfeitos.
A eventual integração da TAP na rede logística da Lufthansa poderá criar novas oportunidades para o transporte de encomendas de e-commerce e para as exportações portuguesas? Que mercados poderão beneficiar mais desta operação?
Sim, existe potencial para criar novas oportunidades, tanto no transporte no e-commerce como na exportação de produtos portugueses. Mas o ganho efectivo dependerá da forma como a carga aérea for integrada com as soluções logísticas, os serviços de distribuição e os procedimentos aduaneiros. No e-commerce, uma maior conectividade poderá também melhorar as opções de transporte para fluxos de importação, exportação e logística de devoluções. Entretanto esta nova realidade apresenta outros mercados, para além dos tradicionais, tais como Brasil (crescimento), outros mercados da América Latina que poderão beneficiar da conectividade proporcionada pela rede da TAP, a Europa Central e do Norte com a articulação com a rede Lufthansa que poderá facilitar o acesso a mercados mais industrializados e as cadeias de distribuição europeias onde hoje a TAP não atua. Depois África e todos os países de língua portuguesa onde poderão surgir oportunidades adicionais, caso se reforcem as ligações e a capacidade para alguns desses destinos e por fim a América do Norte, que poderá beneficiar da articulação entre as ligações transatlânticas da TAP e a rede global do grupo e ainda da nossa posição estratégica Europeia. É por isso que Portugal deve aproveitar esta oportunidade para reforçar o seu papel como plataforma logística atlântica, utilizando a localização geográfica e as ligações internacionais para gerar valor acrescentado para a economia nacional. Há, no entanto, um aspeto fundamental para a competitividade da carga aérea, que não depende apenas de existirem voos. Depende igualmente do tempo, do prazo, do preço, da disponibilidade de espaço, do tratamento da carga nos aeroportos, da rapidez dos procedimentos aduaneiros e da distribuição no last mile, que devemos acautelar em devido tempo.
Na perspetiva dos transitários, que condições considera essenciais para que esta operação se traduza em ganhos efetivos para o setor? Existem riscos de concentração da oferta ou de maior dependência de um único grupo de transporte aéreo?
Na perspetiva dos transitários, o sucesso desta operação deve ser avaliado pelos resultados que produzir e não pelo grupo que passa a integrar a TAP. Entendemos e achamos que fica evidente que vamos ter mais capacidade disponível para carga, pois o crescimento da frota e das rotas a voar, devem vir a ter uma estratégia clara para a carga aérea, incluindo disponibilidade nos voos, frequência, destinos e soluções para mercadorias “especiais”. Depois, ter condições comerciais competitivas e transparentes para servir todos, mesmo TODOS. Os transitários precisam de a ter acesso a tarifas competitivas, regras claras de reserva, flexibilidade comercial e condições que lhes permitam servir empresas de distintas dimensões, incluindo o núcleo principal das empresas nacionais, as pequenas, médias e micro empresas exportadoras. Por outro lado, é preciso que a esta “nova” TAP perceba que os transitários são parceiros fundamentais na organização das cadeias logísticas. As companhias aéreas beneficiam da sua capacidade de agregar cargas, captar clientes, gerir operações complexas e encontrar soluções adaptadas às necessidades de cada exportador ou importador. Esta integração não deve, não pode, esperamos nós, enfraquecer esta relação. É bom não esquecer que tudo o que passa a fronteira passa com um Transitário. Concomitantemente é fundamental melhorar a informação por parte das companhias e dos Handlers sobre espaço, disponibilidade, preços, rapidez das reservas, acompanhamento das expedições e resolução de irregularidades. A integração tecnológica, operacional e aduaneira, devem agilizar todos os processos, em vez de acrescentar complexidade aos clientes, aos exportadores, à carga e à economia nacional. Quanto ao risco de se vir a verificar algum tipo de concentração, há que estar atento. A integração num grande grupo pode gerar economias de escala e aumentar a conectividade, mas também se pode traduzir no poder negocial para apenas alguns em detrimento de outros. Não queremos isso. Se a oferta for muito concentrada, haverá menos alternativas para os transitários, maior dependência de decisões comerciais decididas algures e menor capacidade para negociar preços, disponibilidade e condições. Tal situação significa que é necessário acompanhar a evolução da concorrência, assegurar condições de acesso não discriminatórias e ter condições comerciais iguais, viáveis e competitivas para todos.
Gostaríamos de deixar claro que esta operação deverá ser encarada como uma oportunidade para colocar Portugal no mercado internacional de carga aérea. Portugal tem uma localização geográfica privilegiada, ligações históricas e comerciais relevantes com a América Latina e África e uma economia exportadora que necessita de cadeias logísticas cada vez mais rápidas, fiáveis e competitivas. Por isso, consideramos fundamental que o desenvolvimento da carga aérea seja acompanhado por objetivos concretos e mensuráveis. Os Transitários anseiam por deixar de ir levar carga nacional por via rodoviária, a aeroportos internacionais para embarcarem. A entrada da Lufthansa poderá ajudar a valorizar estas vantagens, no entanto esta situação exige uma visão que reconheça a carga aérea como uma componente estratégica da competitividade nacional, pelo que é importante garantir a articulação entre as companhias aéreas, os transitários, os handlers, os aeroportos, a AT e as empresas exportadoras. A competitividade de uma operação de carga depende de toda a cadeia, desde a recolha da mercadoria até à entrega no destino e nomeadamente, gostaria de deixar bem claro, que a relação com os Handlers, com a AT e esta com a carga. São eventualmente a parcela mais importante desta equação. Finalizo, referindo que na nossa opinião o sucesso desta operação, para a carga, não deverá ser medido apenas pelo crescimento da TAP ou pela sua integração num grande grupo europeu, mas também pelo valor que conseguir criar para Portugal, para os seus exportadores e para os transitários nacionais, ou seja pelo volume que vamos conseguir angariar e expedir via aeroportos nacionais.






