O setor da indústria está a atravessar um dos maiores períodos de transformação das últimas décadas, impulsionado pela Inteligência Artificial, automação dos processos produtivos, reconfiguração das cadeias de abastecimento e crescente instabilidade económica e geopolítica.
Estas mudanças estão a alterar profundamente as funções, as necessidades de competências e a forma como as organizações operam. Como consequência, a procura por talento técnico e especializado está a crescer a um ritmo cada vez mais acelerado, tornando a disponibilidade de profissionais qualificados um dos principais desafios para o setor.
Em Portugal, esta pressão já se faz sentir de forma particularmente intensa. À medida que a automatização das operações acelera e cresce a procura por competências técnicas e digitais, 88% dos empregadores da indústria afirmam ter dificuldades em encontrar os profissionais qualificados de que necessitam, tornando este o setor com maior escassez de talento no país.
“A transformação da indústria está a alterar profundamente as funções e as competências mais procuradas pelas empresas. À medida que a tecnologia evolui e surgem novas necessidades operacionais, aumenta também a pressão sobre um mercado de talento que já é limitado. A este desafio somam-se fatores como o envelhecimento da força de trabalho e a evolução das preferências dos profissionais, tornando cada vez mais importante a planificação estratégica de talento e o desenvolvimento de estratégias integradas de atração, desenvolvimento e requalificação dos profissionais de que as empresas precisam, hoje e no futuro”, afirma Daniela Lourenço, Brand Leader da Manpower.
Neste contexto, a Manpower divulgou o estudo de Tendências do Mundo do Trabalho no setor industrial, que analisa o impacto das principais forças que estão a transformar o setor e as implicações que estas tendências terão na gestão de talento nos próximos anos.
Automação e IA estão a acelerar a transformação das funções industriais
A Inteligência Artificial está a evoluir rapidamente de programas-piloto para aplicações concretas na indústria transformadora, ajudando as empresas a otimizar a produção, melhorar o controlo de qualidade, prever avarias em equipamentos e tomar decisões operacionais mais rápidas.
Ao mesmo tempo, a automação e as tecnologias de fabrico inteligente estão a alterar profundamente as funções industriais e as competências necessárias para as desempenhar. À medida que tarefas repetitivas são automatizadas, cresce a procura por profissionais capazes de programar, operar, monitorizar e otimizar sistemas cada vez mais sofisticados, aumentando a necessidade de competências técnicas, digitais e de resolução de problemas.
A maioria dos empregadores industriais (93%) acredita que estas tecnologias irão transformar a sua força de trabalho, com metade a prever a reafetação dos trabalhadores atuais para novas funções, 42% a antecipar a contratação para novos perfis e 31% a admitir o recurso ao outsourcing. Esta transformação está a contribuir para uma procura crescente de competências especializadas, num contexto em que muitas organizações já enfrentam dificuldades em encontrar o talento de que necessitam.
Apesar do potencial destas tecnologias, a integração da IA na Indústria revela-se mais demorada do que noutros setores. Apenas 46% dos Diretores de Informação (CIOs) do setor afirmam que os seus projetos de adoção de IA já se encontram em fase de implementação, face a 60% na média global de todos os setores. Esta diferença reflete a complexidade dos ambientes industriais e a necessidade de talento especializado com competências digitais, técnicas e de resolução de problemas para concretizar a transformação empresarial em grande escala.
Esta transformação tecnológica está também a gerar algum nível de incerteza entre os profissionais. Quase metade dos trabalhadores do setor (45%) receia que a IA ou a automação possam substituir a sua função atual nos próximos dois anos. No entanto, a maioria (79%) revela também confiança de que terá oportunidades para adquirir novas competências que lhes permitam progredir num novo contexto de trabalho industrial.
Contexto geopolítico e económico global exige novos modelos de produção
A transformação da indústria não está apenas a ser impulsionada pela tecnologia. As tensões comerciais globais, a volatilidade energética e as perturbações nas cadeias de abastecimento também estão a transformar o setor industrial, aumentando custos e condicionando o crescimento das empresas, obrigando as organizações a repensar os seus modelos de produção e logística, e estratégias de investimento e criação de emprego.
À medida que as tarifas aduaneiras e as medidas de retaliação aumentam o preço dos fatores de produção importados, as empresas vêem-se forçadas a reduzir margens, diversificar fontes e rever políticas de abastecimento ou diminuir a produção. Ao mesmo tempo, a incerteza em torno da política comercial condiciona decisões de investimento e de planeamento, contribuindo para o abrandamento da atividade industrial. Paralelamente, a pressão energética surge como um desafio adicional. O aumento dos custos de energia está a pressionar as margens e a estabilidade operacional, sobretudo em setores com elevado consumo energético, exigindo a reavaliação de processos desde a produção até às decisões de investimento e localização.
Ao mesmo tempo, o reshoring, está a aumentar, com muitas organizações a decidir aproximar a produção dos mercados finais. Esta mudança reduz a dependência de cadeias de abastecimento altamente centralizadas e substitui os modelos offshore, alterando as estruturas de custos tradicionais e impulsionando novos investimentos industriais. Como consequência, cresce a necessidade de talento local e especializado, com as empresas a necessitar de profissionais capazes de aumentar a eficiência, apoiar a transformação operacional e responder a novos desafios produtivos.
O impacto destes efeitos na procura de talento é assim contraditório, com as condições geopolíticas e a crise energética na base de um abrandamento nas decisões de investimento e contratação, enquanto as decisões de reshoring aumentam a procura por talento para alimentar as novas unidades produtivas. Assim, e apesar dos dados do ManpowerGroup revelarem um abrandamento nas intenções de contratação no último trimestre no setor industrial global, o emprego permanece forte e a maioria dos empregadores (82%) planeia aumentar ou manter os seus efetivos.
Escassez de talento condiciona o crescimento da indústria
A transformação tecnológica, a crescente necessidade de competências especializadas e a reorganização dos modelos de produção estão a aumentar a procura por talento na indústria transformadora. No entanto, a disponibilidade de profissionais qualificados não está a acompanhar esta evolução, tornando a escassez de talento um dos principais desafios que o setor enfrenta atualmente.
Este desafio é ainda agravado pelo envelhecimento da força de trabalho e pela evolução das preferências dos profissionais, fatores que reduzem a disponibilidade do talento, num momento em que as empresas necessitam de novas competências para responder à automação, integração da IA e transformação das operações. Esta realidade é particularmente preocupante quando mais de metade dos trabalhadores do setor (60%) afirma não ter recebido qualquer formação profissional nos últimos seis meses.
O investimento insuficiente na formação e requalificação revela, assim, um claro desfasamento entre a velocidade da transformação das funções e o desenvolvimento das competências necessárias para as exercer. Como consequência, as organizações enfrentam maiores dificuldades em preencher funções críticas e em garantir o talento necessário para acompanhar a evolução do setor.
A planificação estratégica de talento será fundamental para as empresas industriais alinharem talento e transformação do setor
Perante estes desafios, as organizações terão de ir além do recrutamento tradicional. À medida que a automatização e a IA transformam processos de fabrico, que o envelhecimento da população reduz as bases de talento e que o reshoring cria necessidades de talento em mercados que não dispõem, ainda, das competências especializadas necessárias, o planeamento estratégico de talento torna-se cada vez mais importante.
Antecipar as necessidades das equipas será crucial para reduzir a dependência de mercados de talento cada vez mais limitados e alinhar a estratégia de gestão de pessoas com os objetivos do negócio. O setor deve mapear funções críticas e competências emergentes, identificar aquelas que podem ser desenvolvidas internamente e quais deverão ser encontradas no mercado e redesenhar a força de trabalho, por forma a alinhar competências com a transformação tecnológica e industrial.
Em particular, a construção de bases de talento locais e qualificadas em diferentes geografias será cada vez mais importante, sobretudo à medida que o reshoring acelera. Ao mesmo tempo, a aposta contínua no upskilling e reskilling permitirá preparar os profissionais para novas funções e inovações tecnológicas, aumentando a sua confiança perante a transformação em curso.
Este investimento na planificação ajudará as organizações a acelerar a transformação digital e a maximizar o retorno dos seus investimentos, construindo bases de talento qualificadas e sustentáveis, capazes de responder a processos produtivos cada vez mais inteligentes e sofisticados.
Fonte: Manpower






