A fileira automóvel em Portugal esteve em análise na mesa-redonda “Forças e Desafios da Fileira Automóvel em Portugal”, realizada no dia 23 de abril, no âmbito da Empack Logistics & Automation Porto 2026. A conferência foi organizada pela LOGÍSTICA MODERNA, a convite da organização do evento, que acolheu a sessão no programa da feira. A AFIA — Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, colaborou na preparação da mesa-redonda, contribuindo para o enquadramento sectorial do debate.
A mesa-redonda reuniu António Fernandes, OES Industrial & PC&L Manager Europe Division da FORVIA, Paulo Oliveira, HQ Supply Chain Manager da Simoldes Plásticos e Rui Ortigão Osório, Plant Managing Director da DS Smith Tecnicarton, tendo sido moderada por Carlos Simões, diretor da LOGÍSTICA MODERNA.
O debate centrou-se no papel da indústria de componentes automóveis em Portugal, num contexto internacional marcado pela pressão competitiva, pela transição energética, pela instabilidade das cadeias de abastecimento e pela necessidade de maior capacidade de planeamento.
Rui Ortigão Osório enquadrou o peso da fileira de componentes na economia nacional, recorrendo a dados da AFIA. Segundo referiu, o setor integra cerca de 360 empresas, com vendas anuais em torno dos 14 mil milhões de euros e exportações próximas dos 11,8 mil milhões de euros. “A indústria de componentes automóveis em Portugal é manifestamente muito importante e tem um posicionamento muito discreto, mas com números muito marcantes”, afirmou.
No plano internacional, o responsável sublinhou a perda de peso da produção europeia face à China, apontando para uma alteração estrutural na geografia da indústria automóvel. Na sua leitura, a China consolidou uma estratégia de longo prazo, assente no controlo de matérias-primas, tecnologia e escala produtiva. Para a Europa, o desafio passa por defender capacidade industrial própria e assegurar que novos investimentos, incluindo de fabricantes asiáticos, gerem valor acrescentado nas cadeias locais.
A imprevisibilidade foi um dos temas centrais da discussão. Paulo Oliveira recordou que, desde a pandemia, as regras de funcionamento da indústria se alteraram de forma significativa, com paragens súbitas de produção, maior volatilidade nos mercados e disrupções logísticas mais frequentes. “A principal diferença dos negócios atuais, face a alguns anos atrás, tem a ver com a imprevisibilidade, a insegurança e a incerteza”, referiu.
O responsável da Simoldes Plásticos defendeu que a resposta passa por uma reorganização das operações, maior flexibilidade e reforço das capacidades de planeamento. “O segredo do sucesso é planeamento, planeamento, planeamento”, resumiu, defendendo que a função logística deve deixar de ser vista como uma resposta reativa a problemas e assumir um papel mais antecipatório, apoiado por dados, sistemas de monitorização, Power BI, inteligência artificial e ferramentas de simulação.
António Fernandes, da FORVIA, abordou o impacto da eletrificação no setor. Embora a transição para o veículo elétrico não esteja a ocorrer ao ritmo inicialmente previsto, considerou que este atraso também cria espaço de adaptação para as empresas industriais. No caso da FORVIA, apontou a revisão do portefólio, a massificação de produtos e a reorganização de fluxos produtivos como formas de manter fábricas operacionais e responder à evolução da procura. “A eletrificação não está a acontecer ao ritmo que seria previsível. Isso coloca-nos num período de instabilidade, mas também de oportunidade”, referiu.
A discussão passou ainda pelo papel do packaging como fator de competitividade logística. Rui Ortigão Osório destacou que, estando Portugal numa posição periférica face a muitos clientes industriais europeus, a embalagem pode contribuir para reduzir custos logísticos totais, proteger a qualidade dos componentes e maximizar a utilização de transporte terrestre e marítimo. “A qualidade não é um order winner, é um qualifier”, afirmou, sublinhando a necessidade de soluções integradas nas linhas de produção e adaptadas aos fluxos de exportação.
A maior visibilidade sobre stocks, fluxos e operações foi também apontada como condição para lidar com cadeias de abastecimento mais instáveis. Paulo Oliveira referiu que a relação entre clientes e fornecedores é hoje marcada por uma maior integração de sistemas e por níveis de informação mais detalhados. Segundo explicou, há clientes com acesso a dados sobre stocks, expedições e conteúdos de carregamentos, o que aumenta a exigência operacional, mas também permite uma gestão mais próxima da realidade.
António Fernandes acrescentou que a antecipação é hoje tão relevante como o planeamento. Para o responsável da FORVIA, conhecer o comportamento dos clientes, analisar tendências de mercado e acompanhar fatores externos permite às empresas ajustar a produção e mitigar ruturas. Essa capacidade depende, no entanto, de equipas experientes, sistemas de informação e relações estáveis com clientes e fornecedores.
Na fase final, os participantes identificaram oportunidades para a indústria portuguesa. Entre os fatores apontados estiveram a relocalização de produção na Europa, a necessidade de reduzir a exposição a cadeias longas e vulneráveis, a capacidade técnica instalada em Portugal e a resiliência das equipas. Para Paulo Oliveira, essa continua a ser uma vantagem relevante: “Temos um histórico enorme de bons técnicos, pessoas trabalhadoras, inovadoras e resilientes.”
A competitividade da fileira automóvel em Portugal dependerá da capacidade de combinar planeamento, tecnologia, flexibilidade operacional e conhecimento industrial. Num contexto de cadeias de abastecimento mais expostas a ruturas, a proximidade, a visibilidade sobre stocks e fluxos, e a capacidade de antecipar cenários surgem como fatores cada vez mais determinantes para o posicionamento da indústria portuguesa.






