A aquisição de uma participação de até 49,9% da TAP pela Lufthansa, ainda dependente da aprovação das autoridades competentes, poderá ter impacto no mercado de carga aérea em Portugal, desde a estratégia operacional da companhia e a capacidade disponível até às ligações internacionais e à integração nas redes globais de transporte. Num setor em que a conectividade aérea e a capacidade de resposta são determinantes para a competitividade das cadeias logísticas, importa perceber que oportunidades e desafios poderá trazer esta operação para os operadores do mercado. Em declarações à Logística Moderna, Nuno Rangel, CEO da Rangel Logistics Solutions, analisa os possíveis efeitos desta aquisição no transporte de carga aérea e as perspetivas para o setor logístico nacional.
Logística Moderna – Que impacto poderá ter a entrada da Lufthansa no capital da TAP na capacidade de carga aérea disponível em Portugal, nomeadamente ao nível das rotas, frequências e destinos?
Nuno Rangel – O impacto poderá ser muito significativo, embora seja ainda prematuro quantificá-lo com rigor. A Lufthansa é um dos maiores grupos de aviação do mundo, com uma experiência consolidada no transporte de passageiros e uma operação própria de carga aérea, suportada por uma rede internacional abrangente. A entrada da Lufthansa no capital da TAP poderá permitir alargar a oferta de destinos, reforçar as frequências e aumentar a capacidade de transporte de carga a partir de Portugal. Um dos fatores mais relevantes será a possibilidade de articular melhor as operações da TAP com a rede internacional da Lufthansa, facilitando o encaminhamento de mercadorias para mercados que hoje poderão exigir ligações menos diretas ou tempos de trânsito mais longos. Importa também ter presente que uma parte substancial da carga aérea internacional é transportada nos porões dos aviões de passageiros. Segundo a IATA, cerca de 55% da capacidade internacional de carga aérea é disponibilizada desta forma. Por isso, o reforço das frequências, a utilização de aeronaves com maior capacidade e a eventual introdução de equipamentos de fuselagem larga nas rotas da TAP poderão traduzir-se num aumento da oferta de transporte de mercadorias nos aeroportos portugueses.
De que forma esta operação poderá beneficiar as exportações portuguesas e o transporte de encomendas de e-commerce? Poderá traduzir-se numa oferta mais competitiva para as empresas?
Uma TAP mais forte, com maior capacidade de transporte e melhores ligações internacionais, poderá representar uma vantagem concreta para as empresas portuguesas, em particular para as que dependem da rapidez e da fiabilidade do transporte aéreo para chegar aos mercados externos. Na logística, sabemos que uma ligação aérea direta pode fazer uma diferença significativa para uma empresa exportadora. Mais frequências, maior disponibilidade de capacidade de carga e tempos de trânsito mais curtos podem ser fatores decisivos para a competitividade, sobretudo em setores que trabalham com produtos de elevado valor acrescentado, mercadorias sensíveis ao tempo ou cadeias de abastecimento exigentes. O transporte de encomendas de e-commerce poderá também beneficiar de uma rede mais abrangente, de melhores ligações entre mercados e de maior capacidade para encaminhar volumes de mercadoria de forma eficiente. A articulação entre a TAP e a Lufthansa poderá facilitar o acesso a mais destinos e criar oportunidades para melhorar os tempos de entrega e a fiabilidade das operações. Esta complementaridade poderá ainda gerar ganhos de eficiência na utilização da rede e das infraestruturas existentes, contribuindo para uma oferta potencialmente mais competitiva para os exportadores, operadores logísticos e empresas de comércio eletrónico. Naturalmente, estes benefícios dependerão da forma como a operação vier a ser concretizada, da capacidade efetivamente disponibilizada e das condições comerciais oferecidas ao mercado. O objetivo deverá ser transformar a maior conectividade numa vantagem real para as empresas portuguesas, através de serviços fiáveis, tempos de trânsito competitivos e soluções ajustadas às necessidades dos diferentes setores.
Lisboa poderá reforçar a sua posição como plataforma logística de ligação à América Latina e a África? Que condições serão necessárias para concretizar esse potencial?
Sim, Lisboa reúne condições para reforçar o seu papel como plataforma de ligação entre a Europa, a América Latina e África. A posição geográfica de Portugal, a presença da TAP em mercados estratégicos e a possibilidade de articulação com a rede internacional da Lufthansa poderão criar oportunidades importantes para o transporte de passageiros e mercadorias. A Lufthansa poderá contribuir para encaminhar passageiros e carga provenientes da Alemanha e de outros mercados europeus para Lisboa, permitindo ligações posteriores através da rede da TAP. Esta complementaridade poderá reforçar a utilização das rotas existentes, aumentar a conectividade de Portugal e melhorar o acesso das empresas nacionais aos mercados internacionais. Há, contudo, uma condição essencial, a capacidade aeroportuária tem de acompanhar o crescimento da procura. A construção do novo aeroporto de Lisboa será fundamental para responder às necessidades futuras da aviação, reduzir as limitações de capacidade e permitir o desenvolvimento sustentado das operações de passageiros e carga. Enquanto essa infraestrutura não estiver disponível, será importante melhorar a utilização do aeroporto de Lisboa existente e reforçar o papel do Aeroporto do Porto, nomeadamente através do desenvolvimento das ligações internacionais e da sua utilização pela TAP como hub secundário. Será igualmente necessário investir nas infraestruturas de carga, nos sistemas de tratamento de mercadorias e na eficiência dos processos logísticos nos dois aeroportos. Por fim, considero essencial preservar e reforçar as ligações diretas da TAP ao Brasil, a Angola, a Moçambique e a Cabo Verde. São mercados estratégicos para Portugal, tanto pela relação económica e comercial como pela importância das ligações entre empresas e comunidades. O potencial existe, mas a sua concretização exigirá uma estratégia integrada. Uma companhia aérea mais forte, uma rede de destinos competitiva, maior capacidade de carga, infraestruturas aeroportuárias adequadas e boas ligações entre os aeroportos e os principais centros logísticos do país. Se estas condições forem asseguradas, Portugal poderá reforçar a sua posição como plataforma logística de ligação entre a Europa, África e as Américas, criando novas oportunidades para as empresas exportadoras.






